Acordei e pensei “É hoje.” Ouvi os passos da minha mãe no corredor, com tanta expectativa como nunca; receio por saber que este será o último acordar naquele quarto, naquela cama, com aquelas pessoas do lado de fora. Subo o estore, olho para o vestido pendurado no varão dos meus cortinados, e respiro fundo. O dia nasce resplandescente. Saímos de casa para dar início ao ritual complexo de uma noiva. Tomámos a habitual torrada saloia e cacau quente, sem açúcar para mim, com dois pacotes para ela.
Ao chegar a casa, não perco tempo a ver como o meu irmão está bonito, apesar do seu olhar sério. Olho-me ao espelho de relance, visto a minha lingerie branca, depois o saiote armado, enquanto penso que certamente algumas pessoas se vão esquecer que chegou o dia. Sinto a calma inicial desta manhã a dissipar-se. Chegou a maquiadora, tranquila como se fosse um dia igual a tantos outros, e começa a pintar-me. Chegou logo em seguida a minha prima, de máquina fotográfica em riste, a primeira a chegar e a trazer consigo o espírito próprio dos convidados de um casamento. Chega o meu bouquet, termina a maquiagem, visto o meu vestido de princesa; chegou o momento pelo qual ansiei, ouvir a minha mãe dizer: "Estás tão linda, filha...".
Vários convidados chegam, e todos são especiais, mas tenho a responsabilidade de imortalizar o momento através de uma máquina, e por isso não consigo falar com nenhum, sentir o que estarão eles a pensar. E o que estará ele a pensar? Estará nervoso, ou arrependido, ou ligeiramente indiferente?
A tensão sobe, e deixo de ouvir e ver o mundo tal como ele é. Já não sei quem está comigo, só quero entrar para o carro, subir o altar a correr e olhar para a minha outra metade. O mundo gira mais lentamente enquanto eu me sinto a sufocar de tensão, quero ir mais depressa. Não consigo esperar que todos entrem na Igreja, para me verem entrar como seria suposto, não sou capaz de deixar o momento pelo qual esperei, adoptar o seu ritmo natural. Alguns olham e vêm, outros esquecem que não é um dia como outro qualquer. Só quando chego ao pé dele, percebo que tudo está bem, e não era preciso ter pressa, porque o dia pertence só a nós.
Ali em cima, o nosso amor foi imortal.
Queria poder parar o dia. Que dia ideal para estar com as pessoas de quem gosto, mas tudo acontece tão rápido... Quero ir ver o castelo onde crianças e mulheres soltam gargalhadas; sentar-me no alpendre com cadeirões de verga; agradecer à Jasmim, à Tina Turner, ao Rockabilly, que tornaram possível olhar para este dia e ter a certeza que só podia ser o nosso; mostrar os póneis à minha Inocas; dançar com as minhas companheiras de viagem; dar atenção a quem está com medo de me perder; ver o castelo de Palmela no horizonte, ... Quase que consigo, mas existem lembranças para entregar, prendas para agradecer, amigos para cumprimentar, bouquet para lançar, bolo para partir, amigos de quem me despedir.
O dia perfeito acaba, teimoso e inflexível. Acabo por aceitar que ele tem razão, já cumpriu todas as horas a que se propõs.
A seguir vem a noite. Finalmente estamos apenas dois, e depois só um.
Amanhã virá a vida.
Por Novembro*
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1 comentário:
Novembro, sorri ao longo de todo o teu post e admito que senti ao longo de todo ele a dor na garganta que indicia a ingénua e timida vontade de deixar cair uma lágrima, acreditando que tu própria sentiste vontade para tal! Adorei e consegui imaginar tudo o que sentiste e todos os teus passos e pensamentos ao longo deste dia! Lindo, snif, snif! Beijinhos
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