sexta-feira, 16 de abril de 2010

A 1a idade, a contar do fim...

Hoje vi duas situações que me tocaram bastante e que no fundo me magoaram como ser humano. Neste momento tenho 27 anos, mas se entretanto o mundo não acabar, para mim ou para os outros também, chegarei também eu à idade das rugas corporais e mentais, à idade do desprezo porque não oiço ou falo, à idade da incompreensão, simplesmente porque os meus movimentos e pensamentos são lentos, de acordo com o cansaço dos impulsos nervosos emitidos pelo meu cérebro. Numa primeira situação vejo uma senhora de idade, sentada numa recepção de um laboratório de análises, a ser atendida. Enquanto a empregada lhe emite a listagem de análises a realizar e o recibo de pagamento, a tal senhora, muito bem arranjadinha por sinal, balbucia alguns dos seus problemas, pelo que percebi o marido estava internado no HSM e ela agora morava com a filha, também ela ali sentada a acompanhar a mãe. A verdade é que, entre o barulho da rua, o barulho da impressora a imprimir, o barulho das pessoas a falarem, o barulho do mundo a decorrer e as palavras que a senhora amiúde ia guardando dentro da sua prótese dentária, não se ouvia nada e nem a senhora analista fez qualquer esforço para a perceber. Eu estava de pé, a 1 metro de distância dela e foquei os movimentos dos seus lábios e abstraí-me do Mundo e não, não consegui perceber nada. Mas o mais triste é que, apesar de toda aquela silenciada história não ser de todo importante para mais ninguém a não ser para a dita senhora, aquela que devia dizer alguma coisa, a única coisa que se lhe ofereceu justamente fazer foi: ignorar. Nestes casos no fundo é o melhor a fazer, por muito triste que seja, porque no fundo sabemos à priori que qualquer pergunta ou afirmação vai levantar mais, pelo menos, 10m de dolorosa e vazia conversa.
Na outra situação, talvez mais deprimente, vi um senhor de idade, com um ar ligeiramente sujo, doente, envelhecido e solitário, ser rebaixado, como se rebaixa e afasta um cão vadio e pulguento, pela eventual médica de família. O senhor entrou, com visível dificuldade, consultório adentro, julgo que com problemas de pele, mas também percebi que tinha desmaiado e tinha ido para o Hospital e, áquela hora, 9.30h, ainda não tinha ingerido nada, acho que não tinha vontade. A médica gritou-lhe que ela não podia comer por ele, e que ele tinha que comer senão ia desmaiar outra vez e gritou-lhe para ele sair do gabinete. Terá sido o ar sujo e vulnerável dele que incentivaram aquele comportamento e aquelas palavras tão duras? A mim custou-me ouvir, mas na verdade quem é que acompanha aquelas pessoas? Como se faz com as crianças, quem obriga aquele homem a comer, que possivelmente já não tem mulher, ou nunca teve, e de quem os filhos já não querem saber? Nem a insígnia de ex-militar lhe vale agora respeito, debruçado sobre o casado velho e bolorento.
Faz-me doer verdadeiramente a deprimente evolução do Ser Humano, que passa de um nada fofinho e um tudo irreverente e arrogante até que termina novamente num nada, mas agora cheio de vazio, peles velhas e histórias que ninguém tem tempo de ouvir, nem paciência para escutar. *j*t*

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