Jasmin, o teu post emocionou-me.
É inspirador, bonito e fascinante pensar dessa forma sobre o amor. Outro dia via "O Sexo e a Cidade", uma cena em que Carrie termina uma relação dizendo que não aceita um amor que não a consuma, que não seja avassalador e irresistível, sem urgência de estar sempre com a outra pessoa.
Penso que o dilema é saber quanto de realidade existe neste amor imaginado, certo? É pelo menos o meu dilema.
Como caracterizo este amor de oito anos? Olho para o T. e sei que ele é a pessoa em quem mais confio no Mundo. É puro e até demasiado ingénuo nas suas convicções e interesses, não é capaz sequer de me tocar desde que lhe disse que não estava feliz com a nossa relação. Sei que ele me ama á sua maneira, me quer como testemunha da sua vida. Sei que esteve comigo nas fases mais duras destes ultimos anos, e, em certa medida, obrigou-me e permitiu-me ser tão independente como eu achava que queria ser. Ele tem toda a certeza que me quer a seu lado, que quer que eu tenha os seus filhos, que eu sou parte integrante de si a ponto de não me por em causa tal como não colocaria em causa um orgão interno seu. Sei que, no passado, alturas houve em que não suportava a espera pelas suas mensagens, ou demoras em chegar ao pé dele, que suportava todo o dia na esperança de sentar ao seu lado apenas a ver televisao. Sei que o dia do nosso casamento foi um dia feliz em que eu fui princesa e que será superado apenas pelo nascimento de um filho. Sei que é provável ficar ao seu lado todos os dias que nos faltam viver, e ter momentos bons e felizes.
Mas quem sou eu neste amor? Sinto-o como irresistível e tremo por dentro? Saberei de facto avaliar o impacto que a sua omnipresença tem em mim? Tenho vontade de viver uma outra vida, alugar uma casa pequena, deixar as minhas roupas e brincos espalhados pela mesa, sair do trabalho e ir directamente ver o rio e o por do sol sem me preocupar com o que janto, sair com quem me apetecer sem expectativas ou justificações, ver um filme merdoso acompanhada por um bom vinho e um bom amigo. Não quero para mim por acções judiciais a empreiteiros, comprar canoas e cadeirões de qualidade/durabilidade, decorar a minha casa como se fosse em breve fotografada para a Casa Cláudia, assistir a provas desportivas cheios de homens enlameados e excessivamente magros, manter relações com pessoas desinteressantes "porque sim, porque somos amigos ha tanto tempo".
Quem sou eu na vida? Alguém que transpira intropecçao apesar de ter escolhido fechar os olhos para dormir confortavelmente algum tempo, exactamente durante o tempo que durou esta relação. Sou alguem sarcástico e ironico. Sou alguem forte e inteligente, agora um pouco mais tolerante. Sou alguem que gosta de sentir que é imprescindível, notada, importante, admirada. Sou alguem que rejeita convenções sociais, meramente me adapto às que me permitem viver melhor. Sou alguem que vive na ansiedade das suas escolhas, que sente que algo muito errado poderá acontecer no futuro, que sente a pressão interna para decidir "já" e decidir "para sempre" mas ao mesmo tempo não se sente coesa e decidida. Alguém que consegue ver os outros com clareza mas não a si mesma.
O que fazer com isto? Dar tempo a mim mesma. Contrariar a necessidade de decidir já e para sempre, treinar-me para perceber que há todo um mundo lá fora e que tenho apenas 26 anos e tanto por descobrir, seja aqui o meu lugar ou não. Não é hoje que sei a resposta, está escondida no meu coração e ainda tenho de procurar mais algum tempo.
Por Novembro.
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