Não, não sei. Não me conheço. Não me sinto a ser eu faz algum tempo. Não sei quem é este ser que me acompanha diariamente, de sol a sol, que transpira o mesmo cheiro que eu, que se assemelha comigo nos reflexos dos espelhos e que me sinto a tocar esporadicamente. "Sinto-me sufocada, presa, encurralada e sem saber o que fazer para me libertar... e isso deixa-me nervosa, ansiosa e cheia de medo." Sabes a que estou presa? Estou presa ao presente, presa a um eterno retorno de palavras, gestos, situações e medos. E sabes onde começo a desconhecer-me? É na inércia, é na esperança absurda de que tudo mude e que eu me sinta preenchida e segura por dentro. Começo a desconhecer-me na falta de força para agir, para tomar uma atitude. Tenho medo, sabes? Tenho tanto medo... Vejo tanta coisa ao contrário, vejo tanta coisa que não concordo e tanta incoerência... E eu não sou assim, para mim há um princípio, um meio e um fim, há o correcto e o incorrecto, há o bem e o mal. Não consigo viver no intermédio, na zona cinzenta, na insegurança entre o que pode acontecer e o que vai mesmo acontecer, entre aquilo que é o que eu acho e o que os outros acham, entre aquilo que dizes, queres e sentes e aquilo que eu vejo que desejas e anseias. Receio que não seja a mim que queres, nem nas palavras, nem no corpo, nem no tempo. E eu? Será que é isto que eu quero? Não é e eu sei disso. Começo a ficar cansada de viver neste limbo, nesta corda incerta, que balança consoante o peso do meu corpo, conforme a minha destreza e equilibrio, quer físico, quer mental. Porque é que não pode tudo passar, tudo melhorar, tudo mudar, como muda a pele das minhas mãos, dos meus dedos, deixando por baixo uma face rosada, quase em carne viva. Mas não, ao contrário disso, percorres o meu corpo, criando um rasto de sangue, com cicatrizes que ficarão para mostrar ao mundo o teu caminho. Ao contrário disso, arrastas-te para dentro de mim, entrando pelos pequenos orifícios da minha pele, penetrando os meus orgãos, todos eles, sem excepção, e fazendo-os apodrecer, cheios de bolor, até à explosão. Mas está chegado o tempo, não hoje, e talvez também não amanhã, de te expulsar, qual fungo maléfico, do meu corpo, e recomeçar a viver.*j*t*sábado, 11 de junho de 2011
Não sei quem sou.
Não, não sei. Não me conheço. Não me sinto a ser eu faz algum tempo. Não sei quem é este ser que me acompanha diariamente, de sol a sol, que transpira o mesmo cheiro que eu, que se assemelha comigo nos reflexos dos espelhos e que me sinto a tocar esporadicamente. "Sinto-me sufocada, presa, encurralada e sem saber o que fazer para me libertar... e isso deixa-me nervosa, ansiosa e cheia de medo." Sabes a que estou presa? Estou presa ao presente, presa a um eterno retorno de palavras, gestos, situações e medos. E sabes onde começo a desconhecer-me? É na inércia, é na esperança absurda de que tudo mude e que eu me sinta preenchida e segura por dentro. Começo a desconhecer-me na falta de força para agir, para tomar uma atitude. Tenho medo, sabes? Tenho tanto medo... Vejo tanta coisa ao contrário, vejo tanta coisa que não concordo e tanta incoerência... E eu não sou assim, para mim há um princípio, um meio e um fim, há o correcto e o incorrecto, há o bem e o mal. Não consigo viver no intermédio, na zona cinzenta, na insegurança entre o que pode acontecer e o que vai mesmo acontecer, entre aquilo que é o que eu acho e o que os outros acham, entre aquilo que dizes, queres e sentes e aquilo que eu vejo que desejas e anseias. Receio que não seja a mim que queres, nem nas palavras, nem no corpo, nem no tempo. E eu? Será que é isto que eu quero? Não é e eu sei disso. Começo a ficar cansada de viver neste limbo, nesta corda incerta, que balança consoante o peso do meu corpo, conforme a minha destreza e equilibrio, quer físico, quer mental. Porque é que não pode tudo passar, tudo melhorar, tudo mudar, como muda a pele das minhas mãos, dos meus dedos, deixando por baixo uma face rosada, quase em carne viva. Mas não, ao contrário disso, percorres o meu corpo, criando um rasto de sangue, com cicatrizes que ficarão para mostrar ao mundo o teu caminho. Ao contrário disso, arrastas-te para dentro de mim, entrando pelos pequenos orifícios da minha pele, penetrando os meus orgãos, todos eles, sem excepção, e fazendo-os apodrecer, cheios de bolor, até à explosão. Mas está chegado o tempo, não hoje, e talvez também não amanhã, de te expulsar, qual fungo maléfico, do meu corpo, e recomeçar a viver.*j*t*
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