Fará dois meses no dia 4 de Dezembro que saí de casa com intenção de me separar e divorciar.
Costuma dizer-se que o divórcio causa ainda maior stress que a morte do cônjuge. De facto, não é fácil, mas posso assegurar que pensei que seria bem mais difícil. Todos nós temos estratégias de protecção, de suavização da mágoa que sentimos cá dentro, que ajudam a passar os dias mais duros e a conseguir levar o objectivo até ao fim. Somos mais fortes do que pensamos, principalmente quando percebemos que nos retira muito mais energia manter um ser "moral" ao invés de sermos o que nos vai ca dentro.
Assim, no meio desta tempestade, consegui manter o meu emprego - inclusive com indicações positivas de colegas e chefes -, consegui começar a limar arestas aguçadas em relações de amigos e familiares, consegui não me esquecer das razões para deixar este casamento, consegui iniciar e manter um processo psicoterapêutico, consegui começar a entrar no mundo das relações "de adultos", consegui começar a tratar dos aspectos mais formais do divorcio.
Todas estas "conquistas" têm muito que se lhe diga, mas por enquanto este não é nem o momento nem o local.
Passo por momentos chatos, complicados, insegurança, culpabilidade e muita ansiedade. Por mais que tenhamos pessoas ao nosso lado, com disponibilidade para ouvir e apoiar, o que é certo é que ficou para trás um Projecto de Vida, expectativas, rotinas, objectos, espaços físicos habituais, e até uma forma de ver o mundo e ou outros.
Acho que a principal verdade que retiro de tudo isto é que não podemos ter a certeza que o nosso amor nunca nos deixará, que nunca se interessará por outro(a). Porque, do mesmo modo, nós não podemos garantir ao nosso amor - nem a nós mesmos-, que não vamos mudar e interessar-nos por outra pessoa ou por outra forma de viver.
Eu sinto que lutei muito para manter aquele amor, e que o meu futuro ex-marido deixou de ter a noção de mim, enquanto ser autonomo, e de que por mais dedicado que esse ser (eu) estivesse em manter viva aquela ideia do "nós", não poderia prescindir tanto de si mesmo. Nem sei sequer se ele pensou que eu estivesse garantida, simplesmente não pensou. Mas eu não me deixei morrer, continuei a existir e a crescer. Temos pena :)
Outra certeza que retiro é a de que não devemos, então, prescindir de nós mesmos. Existe um espaço pessoal do qual não devemos abdicar, que no fundo é o que nos torna genuínos. Ter uma relação implica ceder a ponto de tornar a convivência não só suportável, mas claramente melhor do que estar sozinho: estar a dois tem de ser melhor do que estar sozinho. Precisamos do outro para nos completar, para nos dar aquilo que nós não conseguimos sentir sem um outro; mas não precisamos do outro para nos cortar bocados de nós, nos pôr em baixo, nos diminuir. Então, o desafio está em saber quem somos, do que podemos prescindir, do que não abdicamos, e o que nos satisfaz e dá verdadeiro gozo.
É nesse caminho que estou. A ter de conviver com a consciência, por vezes dolorosa, por outras vezes também reconfortante, de que nada é certo. Aqui a sabedoria popular é, de facto, sábia, quando nos diz "não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe". Neste caminho, tento calçar os meus proprios sapatos, saber o que levo na mochila, saber quem quero a caminhar comigo.
Por Novembro.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
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