Olho para ti de soslaio, de forma que não vejas que olho para ti. Quero saber se sorris, se choras, se franzes a testa, se te chateias ou se te emocionas, mas tudo isto sem ter que olhar para ti directamente, sem ter que questionar. Aproveito o teu reflexo na porta de vidro da cozinha, enquanto jantamos, para o perceber. Já percebi que a "nossa vida", os nossos desejos e segredos e, acima de tudo, as nossas ambições e projectos futuros têm que estar subentendidas nos nossos gestos, para evitar o desperdício da palavra. É um "Nós" cheio de mistérios e caminhos nunca percorridos e talvez jamais descobertos. O dito "amor" que nos une, guarda-se dentro de caixinhas, no fundo dos armários, onde ninguém o possa tocar, ver e, irremediavelmente, roubar. Cruzamo-nos por entre as divisões da nossa casa e tocamo-nos entre os lençois da nossa cama. E as palavras... essas, guardam-se para uma melhor oportunidade, para um melhor dia, talvez num outro lugar, com outras pessoas ou com outros silêncios. Se eu pudesse soprar algum fôlego para dentro de ti, algum ar novo e fresco, que te fizesse respirar e viver e sair dessa apatia que te envolve. Tinha sonhado para nós algo mais do que um estoico amor, isento de responsabilidades, e pleno de medos desconhecidos que tens dentro de ti, sem o saberes. Receio não poder ser mais para ti e temo que não te consigas superar e ser mais para mim. E na verdade começo a sentir o sufoco desta espiral descendente em que nos deixámos prender. Talvez tudo passe, talvez tudo mude e volte a ser como já foi um dia.*j*t*
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
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